DIIV mergulham Coura em ondas de shoegaze hipnótico

O sol já se punha sobre a praia fluvial do Taboão quando os DIIV subiram ao palco principal do Vodafone Paredes de Coura. O ambiente estava carregado de expectativa: muitos tinham regressado ao “couraíso” precisamente para reencontrar a banda nova-iorquina, presença de culto no festival.

Zachary Cole Smith, de guitarra em punho e voz etérea, conduziu o público por um set denso e envolvente. O shoegaze característico da banda, tecido em camadas de reverberação e guitarras a perder de vista, soava como um manto a cobrir o vale. As primeiras notas funcionaram como convite a uma viagem coletiva, em que cada canção era mais sentida do que ouvida.

Clássicos como “Under the Sun” ou temas de Is the Is Are foram recebidos em coro, recordando as raízes que cimentaram a reputação do grupo. Mas foi com os temas de Frog in Boiling Water (2024) que os DIIV mostraram a sua evolução: composições mais densas, quase claustrofóbicas, que encontraram eco na atmosfera do festival. O contraste entre nostalgia e novidade manteve o público entre o transe e o entusiasmo.

Apesar da contenção visual no palco — poucos artifícios, sem pirotecnia nem discursos longos — a intensidade da música foi suficiente para encher o espaço. O público, muitos de olhos fechados e corpos em balanço, parecia submergir nas ondas sonoras lançadas pela banda.

No final, os aplausos demorados provaram a simbiose já antiga entre os DIIV e o público português. Em Coura, onde o shoegaze sempre encontrou terreno fértil, a banda reafirmou-se como uma das grandes referências contemporâneas do género. Um concerto hipnótico, quase ritual, que acrescentou mais uma página à longa história de encontros memoráveis entre o festival e a música que pede silêncio, entrega e catarse.

Fotos: Ana Ribeiro