
Quando Mike Hadreas, mais conhecido como Perfume Genius, entrou no palco principal do Vodafone Paredes de Coura, o sol já se escondia por trás da encosta verde do Taboão. O ambiente estava dividido: parte da multidão guardava lugar para concertos seguintes, mas bastaram os primeiros acordes para que a atenção se voltasse, quase em uníssono, para o artista norte-americano.
Com movimentos contidos mas cheios de intensidade, Hadreas transformou o espaço natural de Coura numa cápsula íntima. A sua atuação foi feita de contradições: frágil e intensa, cerebral e física, delicada e provocadora. Canções como rituais, carregadas de emoção, foram recebidas com silêncio reverente, quebrado apenas por aplausos demorados.
O concerto trouxe ao público português temas do recém-lançado “Glory” (março de 2025), um álbum que mergulha nas tensões entre interior e exterior, explorando a superfície imaculada e a turbulência íntima. No palco, essa dicotomia ganhou corpo: a vulnerabilidade de Hadreas contrastava com momentos de explosão súbita, em que a sua presença preenchia o espaço como um feixe de luz inesperado.
Entre canções, não houve grandes discursos. A comunicação foi feita sobretudo através da entrega física: gestos, expressões e o modo como cada palavra parecia pesar. A determinada altura, a simplicidade de uma cadeira em palco bastou para sublinhar o carácter cru da performance — sexo, amor, dor e desejo entrelaçaram-se ali, perante milhares de pessoas.
O público, mesmo quem não conhecia em detalhe a discografia, rendeu-se. Houve quem fechasse os olhos para absorver os arranjos etéreos, quem abanasse a cabeça ao ritmo mais eletrónico, quem simplesmente permanecesse imóvel, fixado na figura de Perfume Genius. A certa altura, o silêncio coletivo do anfiteatro natural parecia amplificar mais a música do que qualquer sistema de som.
Foi um espetáculo diferente do habitual em Coura. Se outras atuações apelam à catarse coletiva, ao crowdsurf e ao grito, aqui o convite foi outro: um mergulho profundo na vulnerabilidade e na beleza. Quando os últimos acordes ecoaram pelo vale, ficou a sensação de que o concerto não tinha apenas sido ouvido — tinha sido vivido, de corpo e alma.
Fotos: Ana Ribeiro









