
O anfiteatro natural do Taboão recebeu ontem um dos concertos mais intimistas desta edição do Vodafone Paredes de Coura. Vindos de São Paulo, os Terno Rei estrearam-se no festival português e trouxeram consigo a melancolia luminosa de Nenhuma Estrela, o quinto álbum lançado este ano.
Era fim de tarde quando Ale Sater (voz e baixo), Bruno Paschoal e Greg Maya (guitarras) e Luis Cardoso (bateria) subiram ao palco. A sua postura discreta contrastava com a intensidade emocional da música. Sem grandes gestos nem explosões, o quarteto deixou que as canções falassem por si — e foi suficiente para conquistar a atenção de uma plateia que, pouco a pouco, se deixou envolver pelo tecido delicado das guitarras e pela voz grave de Sater.
O concerto foi um mergulho em atmosferas contemplativas, alternando entre temas de Violeta (2019), Gêmeos (2022) e o mais recente Nenhuma Estrela. O público respondeu em silêncio respeitoso, interrompido apenas pelos aplausos longos no final de cada tema. Se em Coura muitas vezes se vive do impacto visceral de guitarras urgentes ou da celebração coletiva da dança, aqui o convite foi outro: fechar os olhos, abrandar o ritmo e deixar-se atravessar por um indie-pop de cadência lenta e introspectiva.
Um dos momentos altos surgiu com a interpretação de “Dias da Juventude”, canção que em Portugal já ganhou estatuto de hino indie. Cantada em coro por parte do público, provou que a ligação da banda ao país vai além da curiosidade — há um reconhecimento mútuo que se foi construindo nos últimos anos.
A estreia em Coura serviu também como consagração para os Terno Rei no circuito europeu. O festival, que já foi palco de estreias internacionais marcantes, voltou a assumir o papel de “couraíso” para bandas em ascensão. Neste caso, acolheu um grupo que traz do Brasil uma sensibilidade rara, capaz de dialogar tanto com a herança do rock alternativo quanto com a tradição da canção melódica.
Fotos: Ana Ribeiro








