
O último dia do Vodafone Paredes de Coura ficou marcado por um concerto que já entrou para a memória coletiva do festival. A estreia dos franceses Air no Taboão trouxe uma hora de pura contemplação eletrónica, transformando o vale minhoto num cenário quase cinematográfico, onde até a natureza decidiu intervir.
Logo desde os primeiros acordes, o público percebeu que estava perante algo singular. A dupla, formada por Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel, não precisou de grandes gestos para dominar o palco: bastaram os sintetizadores aveludados, as melodias etéreas e a cadência envolvente para criar um ambiente onde milhares de pessoas se entregaram ao transe coletivo.
O momento mais arrebatador surgiu a meio do espetáculo, durante “Highschool Lover”, quando o céu clareou com relâmpagos e um breve aguaceiro caiu sobre a plateia. Longe de dispersar o público, a chuva funcionou como parte da mise-en-scène, acentuando a aura quase espiritual da apresentação. Entre sorrisos cúmplices e braços erguidos, a plateia pareceu agradecer essa coincidência poética.
O alinhamento recuperou os grandes clássicos de Moon Safari e outras passagens essenciais da carreira do duo, sempre com uma sonoridade límpida e quase balsâmica. Em contraste com a energia explosiva de outros concertos do cartaz, os Air ofereceram serenidade e elegância — uma espécie de suspensão do tempo em pleno coração do festival.
Fotos: Ana Ribeiro




