
O último dia do Vodafone Paredes de Coura ficou marcado por um dos momentos mais arrebatadores da edição deste ano: o regresso de Sharon Van Etten, desta vez acompanhada pela banda The Attachment Theory, que ajudou a transformar o anfiteatro natural do Taboão numa verdadeira catedral sonora.
A abrir com “Live Forever”, Sharon deixou claro que a noite seria mais do que um concerto: seria uma imersão sensorial. Sob luzes minimalistas, a cantora norte-americana surgiu de negro, voz firme mas vulnerável, equilibrando melodia e intensidade. O público, entre silêncio reverente e aplausos entusiasmados, deixou-se guiar pela pergunta retórica que ecoava no refrão: “Who wants to live forever?”
Grande parte do alinhamento centrou-se no novo trabalho, Sharon Van Etten & The Attachment Theory (2025), um registo marcado por eletrónica sombria, sintetizadores densos e uma aura gótica que levou a artista a reinventar clássicos do seu repertório. Temas como “Seventeen” e “Comeback Kid” surgiram com nova roupagem, mais pesada e atmosférica, revelando a liberdade criativa conquistada nesta fase da sua carreira.
Mais do que banda de apoio, os Attachment Theory afirmaram-se como cúmplices artísticos, acrescentando profundidade instrumental e coesão ao espetáculo. Sharon, entre momentos de introspeção e breves sorrisos cúmplices com o público, mostrou-se em pleno domínio do palco, conduzindo cada canção como um ritual íntimo partilhado por milhares.
O concerto terminou em apoteose, com o público a aplaudir longamente, consciente de ter assistido a um dos grandes momentos do festival. Entre melancolia e catarse, Sharon Van Etten deixou a sua marca em Coura: um concerto denso, elegante e memorável, onde a vulnerabilidade se transformou em força e a noite em experiência coletiva.
Fotos: Ana Ribeiro





