
A ocasião prévia na qual marquei presença no Coliseu Porto Ageas, esta icónica sala de espetáculos do norte, foi para ver Samuel Úria, aconteceu a 17 de outubro do ano passado. Nessa altura, o tondelense teve como convidada Gisela João e com a ajuda da barcelense fizeram uma belíssima interpretação de “Lenço Enxuto”. A presença e a aura de Gisela ficaram-me na memória. Por isso, a minha presença nesta última sexta-feira, dia 23 de janeiro, novamente na mesma sala, afigurava-se um convite irresistível e imperdível.
Gisela João apresentou-se no Coliseu num concerto único. Teve carimbo especial extra, pois foi eternizado para a posterioridade já que foi gravado pela RTP para ser transmitido nos meios da televisão pública. Efetivamente singular também pela produção da cenografia muito bem trabalhada e de bonito impacto visual.
Pela primeira vez fiquei alocado no balcão popular, normalmente fico na plateia ou camarotes. Lá em cima deu para ter uma visão renovada da grandiosidade do Coliseu. A única coisa má foi ter o gradeamento a estorvar-me a visão, fiquei na primeira fila. Devo também realçar que a cadeira não era das mais confortáveis para ficar lá instalado mais de duas horas…
A sala esteve totalmente lotada, exceto os sectores superiores das galerias e do geral, estes lugares não foram abertos para venda. Tal como já antevia houve um público bastante heterogéneo, direi que idade média situou-se dentro dos quarentas.
Antes do arranque, uma tela transparente “fechava” o cenário. Nela era projetada uma animação de inverno, com ramos de árvores despidos. Um som místico surgia aqui e ali. Esta projeção e outras similares surgiram de vez em quando noutra tela idêntica colocada atrás dos músicos.
Às 21:37h, após o habitual aviso sonoro, deu-se pela presença dos cinco músicos nos seus lugares ainda sem vislumbres de Gisela João. Destaque para a presença do guitarrista espanhol Carles Rodenas Martinez, amigo e parceiro da longa data da cantora portuguesa.
Antes do seu aparecimento, Gisela fez uma bonita introdução em que apelou: “deixem a vida lá fora”, queria que as pessoas ficassem concentradas no momento. Ela própria queria ter foco total pois ia cantar “as músicas da minha vida” e acrescentou ainda “para cantar os poetas, preciso de estar muito concentrada”.
O mote estava dado e as pessoas cumpriram. Realmente tem outra beleza num ambiente mais intimista ver e sentir as pessoas a desfrutar do momento sem exageros na utilização das máquinas às quais estamos atualmente agarrados. Aliás, nem foram assim muitas pessoas que fizeram uso do dito aparelho durante a atuação.
Assim que Gisela entrou em palco dirigiu-se ao seu apetrecho particular da noite: um baloiço. Por lá balanceou até final de “Madrugada Sem Sono”, a primeira canção da noite e a única que “repescou” do seu álbum homónimo editado em 2013. No final do tema a tela transparente frontal saiu de cena e ficou somente uma atrás dos músicos.
De ‘AuRora’, álbum de 2021, ouvi os temas “Canção ao Coração”, “Não Fico Para Dormir”, “Já Não Choro por ti” e “Louca”. Estão dispostas pela ordem de surgimento na atuação, pelo meio houve outras pois claro.
No entanto, o âmago do concerto foi efetivamente o seu álbum ‘Inquieta’ de 2025 no qual presta o seu tributo à liberdade e aos autores intemporais da nossa história lusitana. José Afonso é o mais abordado num trabalho discográfico aonde resgatou também temas de Zeca Afonso, só para citar os dois principais.
O primeiro momento precioso foi antes da performance de “Que Força é Essa, Amiga”, o tal tema inspirado no original “Que Força é Essa” de Sérgio Godinho e que Capicua recuperou numa versão atualizada aos tempos modernos e de um ponto de vista feminino. Gisela João fez questão de dizer que “busca inspiração em mulheres” e que é “um orgulho viver no mesmo tempo” de Ana Matos Fernandes, a portuense conhecida artisticamente como Capicua, ela que mereceu igualmente uma salva de palmas mais intensa. A interpretação ficou marcada por ter sido um momento quase rockeiro, um bocadinho “fora da caixa”, digamos assim.
Antes de “Llorona”, o tema em que canta no dialeto “portunhol”, partilhou a sua mais recente aventura. Resumindo a história: ela chegou ao Porto na quinta-feira à noite e ao provar o novo outfit para o espetáculo deu conta que não servia. A própria confessou: “estava a desconfiar que vinha aí merda” surtindo numa gargalhada geral. Visitou uma amiga em Joane na manhã do dia do concerto para que aí fossem feitos reajustes contudo deparou-se com falta de energia devido à queda de um poste. Pelo meio desesperava pensando “Vou de cuecas… Já estou meio despida…”. Acabou em Guimarães aonde outra pessoa finalmente conseguiu levar em “empreitada a bom porto”.
A atuação personalizada, segura e bem cativante seguia em ritmo bem aprazível. Outro dos momentos preciosos foi em “E Depois do Adeus” (o eterno hino de Paulo de Carvalho), uma sublime interpretação, que vozeirão!
Cerca de 30 pessoas entraram em palco para “As Sete Mulheres do Minho” (de José Afonso, um dos vários temas dele interpretados). Era o coro que entrava em cena para a sua primeira participação. Até deu para um pezinho de dança de Gisela João, ela que alternou atuar ora descalça ora com saltos altos. Já em “Por Minha Sorte”, também com o coro, deu-se o “momento techno” da noite em que a artista minhota recuperou memórias da adolescência.
A “troca de galhardetes” com Samuel Úria surgiu no tema “Um Dia Depois” em que o músico prestou o seu contributo com a sua incrível voz e uns acordes na sua guitarra num belíssimo momento. A minhota referiu que o tondelense é um dos seus melhores amigos.
A registar os solenes acordes do violino nas introduções faladas de Gisela João enquanto passeava pelo palco. Permitiu um impacto extra às suas palavras. Outro pormenor que registei foi escutar a chuva intensa que caia fora do edifício, estar num patamar superior dá para ter noção de outras coisas, algo que aconteceu por alguns minutos já numa fase avançada do concerto.
“Vejam bem”, a última antes do encore, foi palpitada ao ritmo das palmas de um público que nunca regateou o reconhecimento ao ponto de ter coroado o final do tema com palmas de pé.
Após uma ligeira pausa em que todos saíram e imediatamente reentraram a noite encerrou com “Canção de Embalar” e “Vampiros”, esta última com uma versão futurista em que a bateria eletrónica e a guitarra elétrica são também protagonistas.
“Sempre quis que fizessem mosh nas minhas canções” afirmou Gisela João durante o encore e ainda não foi desta. O “mosh” do seu público é o modo como escuta a sua voz de forma tão acolhedora, respeitosa e vibrante. Como a recebe de ouvidos atenciosos. Às 23:50h um intenso aplauso marcou firmemente o encerramento marcando o gosto que todos tiveram em estar presentes nesta noite no Coliseu Porto Ageas.
A influência do fado nas canções de Gisela João é uma marca indisfarçável e será muito redutor afirmar que o seu estilo é uma espécie de fado moderno. A artista de 42 anos, oriunda de Barcelos, tem o grande mérito de aliar à sua fenomenal voz uma musicalidade de fado com recursos musicais em que a guitarra portuguesa irrompe como aquele ponta-de-lança que entra para marcar o golo da vitória mas aonde também cabe a musicalidade do piano, da bateria eletrónica, da guitarra elétrica e do violino.
Fiz a minha estreia em reportagem escrita para a Printz Media ao mesmo tempo que também vi pela primeira vez Gisela João num espetáculo seu. Um concerto incrível que ficará comigo através deste relato escrito como memória por adiante no tempo.
Fotos: Ana Ribeiro | Redação: Edgar Silva















