Transvision Vamp no Hard Club: o regresso de uma atitude que nunca envelheceu

Transvision Vamp | Foto: Bruno Ferreira

Há concertos que são mais do que uma viagem ao passado. São encontros com uma memória coletiva, com canções que atravessaram décadas e com uma atitude que continua a encontrar espaço no presente. Foi esse o espírito que tomou conta do Hard Club, no Porto, com o regresso dos Transvision Vamp, numa noite marcada pelo rock, pela irreverência e pela energia de uma banda que ajudou a definir uma determinada ideia de pop-rock britânico.

Logan J Parker | Foto: Bruno Ferreira

Antes de a banda britânica subir ao palco, coube a Logan J Parker preparar o terreno. A atuação de abertura funcionou como uma espécie de primeiro capítulo da noite, criando o ambiente necessário para aquilo que viria depois. Entre guitarras, intensidade e uma presença em palco segura, Parker conseguiu captar a atenção do público e deixar a sala preparada para receber os protagonistas da noite.

Depois, as luzes baixaram.

O ambiente no Hard Club mudou de imediato. Bastaram os primeiros acordes para que a expectativa acumulada desse lugar à celebração. Os Transvision Vamp entraram em palco e, com eles, regressou toda uma estética e uma sonoridade que permanecem profundamente associadas à efervescência do final dos anos 80.

No centro de tudo esteve Wendy James, figura incontornável da identidade da banda. A sua presença continua a carregar aquela combinação de atitude, irreverência e glamour rock que tornou os Transvision Vamp tão particulares. Sem necessidade de transformar o passado numa peça de museu, a banda apresentou-se perante um público que conhecia as canções e que, em muitos casos, parecia ter esperado décadas por este reencontro.

E quando chegaram os temas mais reconhecidos, o Hard Club transformou-se numa enorme memória partilhada.

As vozes do público juntaram-se às da banda, criando aquele momento raro em que palco e plateia deixam de ser espaços separados. Canções como “I Want Your Love”, “Baby I Don’t Care” e “Landslide of Love” trouxeram de volta a energia contagiante que marcou a carreira dos Transvision Vamp, provocando uma sucessão de sorrisos, braços no ar e refrões cantados em uníssono.

Mas o concerto não viveu apenas da nostalgia.

Havia uma energia física, quase punk, que atravessava a atuação. As guitarras mantiveram a intensidade, enquanto Wendy James assumia o palco com a experiência de quem conhece perfeitamente o peso simbólico destas canções, mas também sabe que um concerto não pode viver apenas de recordações.

No Hard Club, o passado encontrou o presente sem parecer deslocado.

A nostalgia esteve inevitavelmente presente, mas não como uma tentativa de reproduzir artificialmente uma época. Foi antes uma celebração daquilo que permanece: as músicas, as imagens, a atitude e, sobretudo, a capacidade de certas canções continuarem a provocar uma reação imediata tantos anos depois.

Ao longo da noite, percebeu-se que os Transvision Vamp continuam a ter uma relação muito particular com o público português. Havia quem estivesse ali para reviver a juventude, quem tivesse descoberto a banda muitos anos depois e quem simplesmente quisesse sentir, durante algumas horas, a eletricidade de um concerto de rock sem filtros.

E foi precisamente essa mistura de gerações e memórias que tornou a noite especial.

Quando o último acorde se aproximou, ficou a sensação de que algumas bandas não regressam verdadeiramente ao passado — porque nunca chegaram a sair dele. As suas canções continuam a viver nos discos, nas memórias e, sobretudo, naqueles momentos em que uma sala inteira canta a mesma letra.

No Hard Club, os Transvision Vamp provaram que a nostalgia pode ser muito mais do que saudade.

Pode ser energia, atitude e celebração.

E, naquela noite, foi rock’n’roll.

Fotos: Bruno Ferreira