
Num festival onde a intensidade sonora e os grandes espetáculos frequentemente dominam as atenções, Baxter Dury escolheu outro caminho. O músico britânico transformou a sua passagem pelo Primavera Sound Porto numa demonstração de elegância descontraída, humor subtil e sofisticação musical, oferecendo um dos concertos mais peculiares e cativantes do certame.
Ao entrar em palco, Dury exibiu a postura que lhe é característica: uma mistura de confiança, irreverência e aparente desinteresse calculado. Com um simples gesto ou uma expressão sardónica, conseguiu captar a atenção do público antes mesmo de a banda desenvolver os primeiros arranjos. O concerto desenrolou-se como uma conversa íntima entre artista e audiência, marcada por narrativas urbanas, observações mordazes e melodias envolventes.
A sua voz falada-cantada, marca registada do artista, navegou por instrumentações elegantes que cruzam pop alternativa, disco contemporânea, rock e eletrónica subtil. Cada tema parecia uma pequena vinheta cinematográfica, habitada por personagens excêntricas, romances falhados e reflexões irónicas sobre a vida moderna.
O público português respondeu com entusiasmo crescente à proposta singular do britânico. Embora menos explosiva do que outros concertos do festival, a atuação revelou-se hipnotizante pela sua capacidade de criar atmosfera. Entre linhas de baixo pulsantes, teclados luminosos e ritmos dançáveis, Baxter Dury manteve sempre o foco na narrativa e na personalidade das canções.
Um dos aspetos mais marcantes da atuação foi a dinâmica entre o artista e os músicos que o acompanharam. A cumplicidade em palco acrescentou profundidade aos arranjos e permitiu que as canções respirassem, alternando momentos de contenção elegante com explosões de energia cuidadosamente doseadas.
Visualmente, o espetáculo apostou na sobriedade. A iluminação acompanhou a natureza cinematográfica da música, reforçando a sensação de que cada tema representava um capítulo distinto de uma mesma história. O resultado foi uma experiência imersiva que privilegiou a atmosfera em detrimento do excesso.
Ao longo da atuação, Dury demonstrou porque continua a ocupar um lugar singular na música britânica contemporânea. Longe das fórmulas previsíveis do pop mainstream, construiu uma identidade artística baseada na observação, na ironia e numa capacidade rara de transformar o quotidiano em matéria poética.
No final do concerto, os aplausos confirmaram o impacto da sua passagem pelo Parque da Cidade. Sem recorrer a grandes efeitos ou momentos de espetáculo convencional, Baxter Dury conquistou o público através do carisma, da inteligência e da autenticidade.
Fotos: Ana Ribeiro








